Uso da Internet por grupos extremistas

14/04/2016

O texto a seguir não foi escrito pela Aofi. Ele foi originalmente publicado na Revista Brasileira de Inteligência / Agência Brasileira de Inteligência. – Vol. 3, n. 4 (set. 2007) – Brasília : Abin, 2007. Disponível em http://www.abin.gov.br/conteudo/uploads/2015/08/revista4-1.pdf

Cmt. Int. Rômulo Baptista de Souza

Abin

A rede mundial de computadores possui características que podem torná-la espaço ideal para diversas atividades, inclusive suspeitas e ilícitas, tendo em vista a facilidade de acesso, a velocidade de transmissão de dados, a regulamentação legal deficiente, dentre outros pontos. Os usuários utilizam-se de salas de batepapo, grupos de discussão, correio eletrônico, ambientes que possibilitam, além de outras facilidades, a comunicação no anonimato e a utilização de identidade falsa.

Nos últimos anos, vem-se observando incremento da utiliza- ção da internet por grupos extremistas, o que resulta num aumento do número de websites que possuem algum vínculo com essas organizações, os quais podem estar disponíveis no idioma do país de origem e no idioma de domínio da comunidade internacional, a língua inglesa.

Todavia, o conteúdo textual e visual do site para ambos os públicos não necessariamente é o mesmo. No idioma do país de origem, por exemplo, as imagens e o texto podem passar a idéia de alta capacidade operacional de um grupo extremista. No idioma dirigido à comunidade internacional, a organização pode enfatizar a necessidade de uma política de diálogo com autoridades do governo, rejeitando o uso da violência.

Essa estratégia de criação de websites direcionados a públicos específicos tem sido desenvolvida por integrantes de organizações como os Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE), do Sri Lanka, que podem divulgar conteúdos em cingalês, por exemplo, transmitindo a informação com uma idéia de força, enquanto o site em língua inglesa pode divulgar a importância da negociação e da busca do diálogo para a solução política.

Por serem divulgados em idiomas de difícil compreensão para o mundo ocidental, as homepages tornam-se ambiente virtual perfeito para que grupos extremistas encontrem refúgio e propaguem seu ideário, superando, inclusive, os limites da censura.

A Al-Qaeda, por exemplo, não é mais uma organização fechada. Com o uso da internet, o grupo liderado pelo saudita Osama bin Laden passou a conectar-se virtualmente com outras organizações dedicadas à denominada jihad (“guerra santa”) global, garantindo êxito na divulgação de sua ideologia e na realização de recrutamento, sem a necessidade de seus militantes se exporem geograficamente e, assim, terem seus objetivos monitorados e frustrados por autoridades governamentais.

Da propaganda ao treinamento de militantes, a rede mundial de computadores possibilita àquela organização, por exemplo, desenvolver atividades e transmitir orientações e conhecimentos que eram exeqüíveis somente se os recrutados estivessem fisicamente em campos de treinamento terroristas.

Nesse sentido, há dois anos aproximadamente, a Al-Qaeda divulgou anúncios na internet visando a recrutar pessoas que possuíssem experiência em elaborar textos e realizar a cobertura, a produção e a edição de vídeos visando a mostrar os locais onde militantes de grupos extremistas estivessem atuando, a exemplo do Iraque e da Chechênia. A partir do interesse manifestado por esses potenciais “candidatos”, eles eram contatados por integrantes da organização via e-mail.

Até 1998, havia perto de uma dúzia de sites que divulgavam conteúdo de cunho extremista na internet. Todavia, após os atentados ocorridos em Nova York e Washington, nos Estados Unidos da América, em 11 de setembro de 2001, esse número aumentou significativamente. Organizações consideradas terroristas pelo governo estadunidense (aproximadamente 40) mantêm perto de 4 mil sites na web. Segundo o professor Gabriel Weimann, da Universidade de Haifa/Israel, autor do livro “Terror na Internet”, existem páginas destinadas a integrantes da da Al-Qaeda, a potenciais simpatizantes, a inimigos da “causa” e à opinião pública em geral.

Orientações diversas são passadas a interessados, mediante divulgação de manuais para se produzir, por exemplo, agentes químicos e biológicos, explosivos e venenos, e se montar e desmontar, entre outros, o fuzil de assalto AK-47, utilizado por militantes de organizações radicais. Além disso, em alguns sites, há, inclusive, histórico e missão do grupo e comércio de variados produtos (bottons, camisetas, canetas).

A internet tornou-se, pois, importante ferramenta tecnológica para grupos extremistas tendo em vista que o mundo virtual propicia um ambiente seguro para estes.

Entretanto, não se pode determinar, ainda, a capacidade real da rede de computadores para, entre outras ações, promover um processo de radicalização de indivíduos que participam dessa comunidade virtual e de interessados em perpetrar atos extremistas contra alvos em qualquer parte do mundo.

Referências:

ESTADOS UNIDOS. Department of Defense. Terrorist group profiles. Washington, DC: Government Printing Office, 1988.

SEMANA do terrorismo. In: Discovery Channel, 6 a 12 de março de 2006.

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